A pintura de Cristina González apresenta-se como uma voz serena, que se deixa embalar no vento, deixando cair as palavras por cada ouvido que passa. Escuta-lhe, porém, quem se oferece à tranquilidade, a assentar na ternura dos dias, como se nada mais à volta importasse, senão o “eu”. Esse eu íntimo subjugado na atualidade. Este outro eu, preso em ecrãs e redes sociais, permanentemente ligado, invade todos os espaços da vida humana, até que a palavra “intimidade” se dissolve no fluxo constante de estímulos externos, na exposição contínua e na vaidade que nos afasta de nós próprios.”
E porque tudo parece fazer sentido quando olhamos para as telas diante de nós? E porque existem afinal, estas obras e qual é o “motivo” de quem as pinta? O que move esta profundidade que apela para a completa abstração do ruído dos dias? Se a poeta brasileira escreveu eu canto por que o instante existe, Cristina González afirma: pinto para honrar o presente – para reflectir a beleza ao nosso redor e as emoções que nos atravessam.
A sua pintura coloca o sentimento no centro do núcleo existencial a que podemos chamar de alma. Que como tal, existir significa deitar-se na esteira misteriosa que é a vida, onde nada é constante, mesmo quando procuramos impor rotina ao corpo, movidos por várias necessidades. Será por isso que os elementos na sua obra se vão revelando, um a um, como se nos brindassem a paciência, e a vontade que cresce de se lhes descobrir os significados e sentido.
Estas obras não se entregam sem que nos ofereçamos primeiro a elas. É como se elas conhecessem mais a nós do que nós a elas. Temos de fazer por merecer a sua atenção e, mais do que isso, desafiam-nos a humildade, a humanidade e a abdicar de tudo o que nos cerca. É como se acedêssemos a uma memória distante, ela não se revela de forma automática, é preciso que alguma coisa instigue essa visualização. Também por isso, apesar do estranhamento, tudo nos parece familiar e aconchego.
Cristina Gonzáles mostra-se utópica, ainda acredita que as cores podem revelar o interior dos homens e das mulheres, sem agrupá-los, sem reduzi-los à sua acção ou funcionalidade. As pessoas valem pela alma, esta que, acredita-se, una, um território intangível, mas que habita em nós e é um intervalo atemporal da existência.
Imaginemos o interior desse núcleo que se chama alma, que não se encontra nem dentro do corpo, nem no exterior. Um território em si, onde se guarda a vida, as vidas, e por isso indestrutível e infinito. As cores destes quadros por vezes são intensas, por vezes se misturam entre si, como uma névoa a bailar, como milhões de partículas na atmosfera, que milagrosamente se tornam visíveis a olho nu. É esse, aliás, o milagre da arte, habitar as manhãs, a cor – o tempo, a curva adocicada da vontade (…) depois a vastidão, o riso e o sossego, sossego sem ser paz, nem aventura, como nos agracia no seu poema “palavras”, Maria Teresa Horta.
Texto de Eduardo Quive